Cerejas

Silêncio

A Câmara Municipal está tratando de abolir os barulhos harmoniosos da cidade: os auto-falantes e as vitrolas. [...]
Gosto daqueles móveis melódicos e daquelas cornetas altíssonas. Fazem bem aos nervos. A gente anda, pelo centro, com os ouvidos cheios de algarismos, de cotações da bolsa de café, de câmbio, de duplicatas, de concordatas, de "cantatas", de negociatas e outras cousas chatas. De repente, passa pela porta aberta de uma dessas lojas sonoras e recebe em cheio, em plena trompa de Eustáquio, uma lufada sinfônica, repousante de sonho [...] E a gente pára um pouco nesse halo de encantado devaneio, nesse nimbo embalador de música, até que a altíssima farda azul marinho venha grasnar aquele horroroso "Faz favorrr, senhorrr!", que vem fazer a gente circular, que vem repor a gente na odiosa, geométrica, invariável realidade do Triângulo - isto é, da vida."
Urbano (Guilherme de Almeida), 1927.

30 de julho de 2013

Vamos abrir uma vaga na estante: A música de Milton Nascimento, por Chico Amaral

Vamos abrir uma vaga na estante para esse lançamento oportuníssimo: A música de Milton Nascimento, por Chico Amaral. Os músicos nem sempre são de se expressar por palavras, ainda mais escritas, preferindo os sons para alcançar outras formas de comunicação. Ou quando o fazem, muitas vezes é num modo sintético, como a letra de canção. Mas há um campo vasto em que grandes músicos já se aventuraram como escritores, seja no ensaio, na ficção, nas biografias, nas análises musicais propriamente ditas. Pelo talento e esmero do Chico Amaral no que faz, dá pra antecipar que este seu volume que reúne ensaios, entrevistas, análise de partituras e discografia comentada chega para figurar entre as boas investidas de músicos em plagas literárias. O lançamento será no dia 30, no Museu Histórico Abílio Barreto.

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De volta do lançamento que foi abrilhantado com a presença de boa parte da nata da música popular feita em Minas, incluindo Mr. Bituca em pessoa. Além de tudo num lugar em que sempre estou "em casa" que é o Museu Histórico Abílio Barreto. Quem também esteve por lá foi meu parceiro Pablo Castro, que já deixou sua primeira impressão que reproduzo a seguir:

"Ontem tive o prazer de comparecer ao lançamento do livro de Chico Amaral sobre a música de Milton Nascimento. Sem falar na generosidade de um músico de seu nível , exímio saxofonista, compositor e letrista consagrado, se dedicar a mergulhar na obra de um outro artista, fica claro que só alguém como ele, multifacetado, ilustrado, profundo conhecedor da música em geral, e sua história, tanto no Brasil quanto no resto do mundo, e próximo a Bituca, de quem é parceiro, seria capaz de falar profundamente sobre a MÚSICA de Milton, arrancar dele , além de vários causos, pequenas pistas sobre a abissal originalidade que , tal como conto de fadas, foi ultrapassando as barreiras , desafiando a lei das probabilidades, e se impondo como uma das obras musicais mais importantes do século XX, em todo o mundo.

Em vez de se lançar a um ímpeto analítico sistemático, ele vai tateando o território musical de Milton de várias maneiras diferentes, através de entrevistas com o próprio Bituca, e figuras geniais que ele revelou pelo caminho, como Nelson Ângelo, Wagner Tiso, Nivaldo Ornellas, Tavinho Moura , e Amilton Godoy, do Zimbo Trio, além de pequenos textos, resenhas de seus discos mais importantes, e algumas delicadas e discretas passagens sobre a vida pessoal do biografado.

Em suma, preenche-se uma lacuna importantíssima para a musicografia do Brasil, um tributo à bruta e indecifrável originalidade musical de Milton Nascimento. Não deixem de ler !"

Agrego também a ótima resenha publicada pelo colega pesquisador Rafael Senra no facebook [aqui]

26 de julho de 2013

Músicos sem fronteiras - homenagens a Dominguinhos

Enquanto estava aqui em Natal para participar do XXVII Simpósio Nacional de História da ANPUH  anunciou-se a morte de Dominguinhos. Um grande músico, antes de mais nada. A condição de herdeiro artístico de Luiz Gonzaga, mais do que merecida, é só uma das provas disso. Dominguinhos sanfoneiro, claro, mas também um baita compositor e intérprete, com identidade própria e contribuições que vão além dessas demarcações imediatas. Justamente esse tópico, por assim dizer, da relação da música com os lugares, as fronteiras de tempo e espaço, um dos principais nós das discussões travadas entre os participantes do ST de História e Música, que teve a condução rigorosa e ao mesmo tempo agradabilíssima do caro colega Adalberto Paranhos (UFU). Por isso mesmo julguei que para homenagear Dominguinhos seria bacana buscar um pouco dessa visão para além das fronteiras.  

Pincei por aí algumas coisas, e começo com essa citação de entrevista de um de seus mais importantes parceiros, Gilberto Gil, extraída do portal G1 [completa, aqui] :

“Dominguinhos foi além, em uma direção que Gonzaga não pôde, não teve tempo. Ele foi na direção do início de Gonzaga, o instrumentista, da época das boates do Mangue, no Rio de Janeiro, quando ele tocava tango, choro, polca, foxtrot, tocava tudo, repertório internacional, tudo na sanfona. ”
Emendo o depoimento de Tato Cruz, do grupo Falamansa [completo, aqui], de outra geração mas cuja fala vai de encontro ao que disse Gil: 

"O que talvez nem mesmo Luiz Gonzaga imaginava é que seu "apadrinhado" viraria um dos maiores músicos do planeta e que romperia a barreira dos segmentos rítmicos se aventurando entre o jazz, o chorinho e a MPB com maestria."
Justamente o que podemos ouvir nessa colaboração dele com o Toninho Horta, ademais homenagem do segundo ao próprio Dominguinhos. E, por fim, uma canção que admiro demais, Tenho sede, parceria dele com sua companheira e parceira Anastácia, lindamente interpretada junto com o Gil. Uma canção digna dos grandes artífices dessa linguagem, em qualquer lugar do mundo.




22 de julho de 2013

Sonhando com outra cidade

Impossibilitado de comparece ao imperdível show 10 anos de A outra cidade [confira reportagem do Hoje em Dia aqui e de O tempo aqui], em razão de ter viajado para participar do Simpósio Nacional da ANPUH em Natal - e de ainda não ter sido inventado o teletransporte - só posso daqui desejar o melhor aos meus amigos / parceiros Kristoff Silva, Makely Ka e Pablo Castro + todos os músicos convidados, um grande show. E dizer que continuamos todos nós sonhando com outra cidade. Nessa cidade (Alteria pode ser seu nome)  o Andante chega sempre ao seu destino. Numa casa de forró, um migrante nordestino toca Xote polaco na sanfona, todo mundo dança. Um estudante, sentado na parada de ônibus, pensa na vida e decide que, de agora Em diante... Do outro lado da rua para um rapaz que lê uma carta, aquela que confirma sua Intuição e o faz rever seus conceitos sobre o amor. Mal sabe ele que Perto daqui passa uma Mulher (vinda) do Norte, aquela que foi salva de Morrer no Mar quando entrou no cinema e ouviu o Tema do mergulhador. Aconteceu no dia em que estava acometida de uma Monotonia gris, pensando em como a delicadeza se desmancha, qual Outra flor de cal. Bem diferente é a menina sentada na esquina que remexe suas Madeixas, tudo pra chamar a atenção, e ficar na Mira do olhar do jovem guerreiro observador das tradições, O chamador tatuado no braço, protegido por um Santo Forte. Mas olha a Volta barroca que a vida dá, justamente esse era o filho de um marinheiro que não tinha porto que prendesse, homem sem deus, adepto do Carpe Diem. Nessa cidade os nexos que ligam as pessoas são paradoxais, mas sua ânsia de ocupá-la e fazer dela seu lugar é Atemporal.


13 de julho de 2013

O rock que fala de rock

A título de homenagem pelo Dia do Rock, fiz rapidamente uma playlist com rocks que falam do próprio rock and roll, recorrendo assim à prática da metalinguagem. Certamente que quiser pode acrescentar mais títulos à lista ou fazer a sua própria. Eu mesmo pensei em mais algumas que acabei deixando de fora até por questão de gosto, pressa ou esquecimento mesmo.

3 de julho de 2013

Belo Horror

Flávio Venturini, Hely, Ronaldo Bastos, Vermelho, Toninho Horta, Beto Guedes e José Eduardo. Grupo que gravou o disco A Página do Relâmpago Elétrico de Beto Guedes. Rio de Janeiro, RJ – 1977.

Em meio a muitas tarefas hercúleas de final de semestre, uma brechinha para publicar alguma coisa aqui no blog. Acabei de ler uma postagem no blog do Vermelho, do 14 Bis, falando de Belo Horror [aqui pra conferir o texto completo]. Uma canção impressionante, de arranjo progressivo inspiradíssimo e fincada nos tempos brutos em que veio à luz. Na letra, um jogo espertíssimo que tira proveito dos nomes sugestivos das cidades Belo Horizonte e Montes Claros, paradas obrigatórias na cartografia material e simbólica do Clube da Esquina. Entre muitas coisas interessantes registradas pelo Vermelho está o relato sobre o início da composição :
Começou com uma sequencia quase clássica que eu tocava direto no órgão e o Beto improvisava belas melodias ao bandolim. Tocávamos horas... A maioria das improvisações se perdeu, mesmo as que gravei em k-7... (na época, nem pensar em gravadores digitais...). A gente tava ouvindo muito Genesis e Pink Floyd e isto nos influenciou, mas a sequencia classico-barroca é influencia disso e criação original minha, igual as belas melodias do Beto, tão típicas dele. Depois fizemos um parte mais pesada e o Flavio - que tava doido pra participar da musica que tocávamos dia inteiro na casa dele! - fez a melodia que começa este tema bem progressivo.
Outro ponto de interesse é a parte sobre a gravação, bastante reveladora da lógica de funcionamento da indústria fonográfica. Vejam que gosto e mercado podem protagonizar processos conflituosos bem inusitados. Mesmo num momento em que músicos como esses possuíam uma certa liberdade dentro da indústria do disco, precisavam "negociar" sua criação dentro certos padrões estabelecidos, que poderiam eventualmente ser os de uma música popular sofisticada:
Só que quando chegamos pra gravar no Rio, o resto do pessoal, que era mais chegado em bossa nova, mpb etc - nada contra - chiou quando viu uma musica daquela, ainda mais que era enorme....... Encheram o saco do Beto que tivemos que diminuir o tempo da musica, acelerar uns trechos - e grande parte das belas melodias de bandolim com órgão não foram pro disco. Mesmo assim, ficou ótima, tem um piano mto bem bolado pelo Lô Borges, e o vocal ficou bom.



Belo Horror (B.Guedes, F.Venturini, Vermelho, M.Borges)


Belo horizonte
Monte claro: meu segredo
Marcado pelo som que vem do mato.
Mato horizontes,
Fundo claros contra o medo
E nada tenho a ver.
Quero a palavra errada,
Quero a hora certa de entortar.
Meu amor, Montes Claros
Belo horror, horizonte
Céu sem dono
Mal começa a clarear...